Como o 25 de Abril Mudou o Desporto em Portugal

Cravo vermelho erguido por uma mão em celebração, com multidão ao fundo e bandeira de Portugal, símbolo do 25 de Abril e da liberdade em Portugal.

 

Quando falamos do 25 de Abril, é natural que pensemos em democracia, liberdade de expressão, fim da censura, eleições livres. Mas há um campo onde a revolução também se fez sentir com grande impacto e que muitas vezes é esquecido nas celebrações: o desporto.

Antes do 25 de Abril de 1974, o desporto em Portugal estava longe de ser o que hoje conhecemos. Vivíamos num país onde a prática desportiva era fortemente controlada pelo Estado Novo. Não existia verdadeira liberdade associativa e qualquer atividade organizada tinha de alinhar com a ideologia dominante.

 

O desporto era visto, acima de tudo, como uma ferramenta de propaganda nacionalista e de mobilização ideológica.

 

Ao longo de décadas, o regime do Estado Novo investiu em organismos como a Mocidade Portuguesa (MP) e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) para usar o desporto como ferramenta de doutrinação e controlo. A primeira, criada em 1936, era um dos braços da doutrinação ideológica do regime junto das crianças e jovens. Através da atividade física e de um discurso de disciplina e obediência, pretendia-se moldar um “cidadão modelo”, alinhado com os valores autoritários e nacionalistas do regime. Fomentava-se uma ideia de regeneração da “raça portuguesa” — forte, saudável, trabalhadora — em oposição à imagem de um Portugal pobre e decadente.

A FNAT, por sua vez, atuava sobretudo junto da classe trabalhadora, promovendo atividades desportivas e de lazer, mas sempre com um objetivo de controlo social. O desporto era usado como forma de distração e enquadramento ideológico, promovendo valores que servissem os interesses do Estado. A profissionalização era desincentivada, e a ideia de desporto para as massas era vista com desconfiança. Como se pode ler em documentos da época, o objetivo era “educar, civilizar e desenvolver os valores defendidos pelo Estado Novo” e nunca questionar a ordem estabelecida.

O desporto escolar, neste mesmo espírito, tinha uma função essencialmente utilitária: formar corpos fortes e disciplinados, alinhados com os ideais do regime. A prática desportiva não era pensada como um direito de todos, mas como um instrumento ao serviço do Estado. Ao mesmo tempo, o acesso ao desporto na população em geral era profundamente desigual, condicionado por barreiras económicas, sociais e geográficas que excluíam grande parte dos portugueses.

Foi com a Revolução dos Cravos que o desporto em Portugal ganhou outra vida e outro sentido. A liberdade conquistada no 25 de abril de 1974 traduziu-se rapidamente num novo paradigma para o setor desportivo: mais democrático, mais inclusivo, mais centrado no indivíduo e na comunidade. O desporto deixou de ser apenas espetáculo ou exaltação patriótica para se tornar, cada vez mais, uma expressão de cidadania ativa, bem-estar e desenvolvimento pessoal.

 

Abertura à participação e ao associativismo

Com o fim do regime, clubes, associações e federações passaram a poder organizar-se de forma autónoma. Surgiram novas entidades desportivas, muitas vezes ligadas a movimentos juvenis, culturais ou sindicais, que viam no desporto um espaço de formação e de transformação social.
Este novo dinamismo associativo trouxe consigo uma explosão de criatividade e diversidade. Modalidades até então marginalizadas começaram a ganhar visibilidade, e projetos comunitários voltaram-se para a promoção da atividade física como instrumento de coesão social. A descentralização do poder permitiu que regiões mais periféricas começassem a construir o seu próprio tecido desportivo.

 

A escola e a democratização da prática

A escola pública foi uma das grandes beneficiadas por este novo ciclo. O ensino da Educação Física foi reforçado, e os programas escolares passaram a incluir mais modalidades, mais tempo de prática e uma maior valorização do corpo e do movimento como componentes fundamentais da formação dos alunos.
Os programas de desporto escolar ganharam relevância e começaram a articular-se com clubes locais, criando pontes entre a escola e a comunidade. As crianças e os jovens passaram a ter mais oportunidades de acesso ao desporto, independentemente da sua origem socioeconómica. E esta mudança estrutural continua, ainda hoje, a produzir frutos.

 

O desporto como instrumento de inclusão e cidadania

Mas talvez a transformação mais profunda tenha sido cultural. Ao conquistar o direito de livre associação, de livre expressão e de participação ativa na sociedade, também redescobrimos o desporto como ferramenta de inclusão social, de promoção da igualdade e de reforço dos valores democráticos.
A prática desportiva começou a ser entendida como um direito e não como um privilégio. E isso abriu espaço para novos debates: a igualdade de género no desporto, a integração de pessoas com deficiência, a valorização da ética e do fair play, o combate à violência e à discriminação nas competições.

 

Hoje, falar de desporto em Portugal é falar de liberdade. E é também por isso que o 25 de Abril deve ser celebrado nos campos, nas pistas, nos pavilhões e nas praias.

 

O testemunho de quem viveu e construiu a mudança

Na Gnosies, temos o privilégio de contar com formadores que viveram estas transformações por dentro e que continuam a contribuir para o desenvolvimento do desporto português com pensamento crítico e ação concreta. É o caso de António Vasconcelos Raposo, cuja obra “Democracia e Desporto – Mudanças e Conquistas” é leitura obrigatória para quem quer perceber a verdadeira dimensão da revolução desportiva que vivemos desde o 25 de abril de 1974.

Neste livro, o autor traça uma linha clara entre o antes e o depois do 25 de Abril. Fala-nos das dificuldades do tempo da ditadura, das oportunidades que a democracia trouxe, dos desafios que enfrentámos — e que ainda enfrentamos — para garantir que o desporto seja, de facto, para todos.
Mais do que um retrato histórico, este é um apelo à ação: à necessidade de continuarmos a defender o desporto como espaço de liberdade, inclusão e cidadania. E esta missão está no centro daquilo que fazemos na Gnosies: formar treinadores, capacitar instituições, promover boas práticas e fomentar um desporto mais justo, acessível e transformador.

 

Celebrar o 25 de Abril também no desporto

Neste mês de abril, queremos convidá-lo a refletir connosco sobre o papel que o desporto tem desempenhado na construção da nossa democracia. Que conquistas alcançámos com o 25 de abril? Que batalhas ainda temos de travar? Como podemos usar o desporto para continuar a fortalecer a liberdade e a participação cívica?
Porque a liberdade também se joga em campo e é nossa responsabilidade continuar a jogar por ela.

🌹 25 de Abril Sempre. Viva a Liberdade. Viva o Desporto.

 

 

 

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